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A família Bellamy



"A família Bellamy" (Upstairs-downstairs) não é uma série nova, oh não! Foi feita nos anos 1970-75 mas ainda assim, esta soberba série que começa no início do século no qual muitos de nós nascemos e do qual nos despedimos há 12 anos, ainda vai atravessar a primeira guerra mundial e também ultrapassá-la. É a melhor coisa a passar na televisão actualmente

Bom, diria-se, pelo retrato detalhado da época Eduardiana (UK, 1901-1910), que a série é uma adaptação de uma obra literária qualquer, mas NÃO. Na realidade, a série deu origem a obras literárias. Tem essa característica tão singular também a torná-la especial entre as demais. Upstairs-Downstairs, a passar na RTPMemória aos fins-de-semana, é uma ideia original de duas actrizes britânicas e remota ao final dos anos 60. Mas se pensam que isto a torna antiquada, oh, como estão enganados!


Ver a “Família Bellamy” é reflectir constantemente sobre a humanidade. O ser humano é o que está a ser retratado nesta série que mostra o quotidiano de dois núcleos distintos: uma família abastada e os empregados que a servem, na época de entrada do séc. XX, que marca o fim do reinado da Rainha Vitória de Inglaterra. Quando a Índia era uma colónia britânica e lutas eram travadas alem-mar.

É um fascinante retrato de pessoas, deveres, responsabilidades, orgulho, papéis sociais, sociedade, etc… Tem personagens verdadeiramente ODIOSAS (Elizabeth, Arthur) e outras que estão sempre a surpreender e nada, mas nada é estereotipado. Cada uma é profunda e com muita história para contar. São feitas referências a hábitos da geração anterior, educados na época Vitoriana, como por exemplo, o uso do espartilho ser essencial a uma senhora. Vemos o sistema de comunicação de sinos e campainhas utilizados entre patrões e empregados ser substituído pelos fios eléctricos, e o gás dar a vez à eletricidade. Uma sociedade diferente nos costumes e, no entanto, tudo é tão igual ao que sempre será e ao que ainda é hoje.


Chorei ao ver os capítulos que foram para o ar neste último fim-de-semana. Nenhum criou uma situação trágica ou de choro. Apenas retratou realidades tão transversais no tempo que suscitam emotividade. Como por exemplo o relato que a Ms. Bridges, a velha cozinheira, faz sobre o momento em que começou a trabalhar naquela casa, mais de 30 anos antes. Conta ela que os patrões nem reconheceram o seu esforço na preparação de um molho para o jantar, pois era apenas ajudante de cozinha e teve de substituir subitamente a cozinheira que caiu morta no chão. Os patrões mandaram o molho para trás, argumentando que estava com grumos, ao que a cozinheira conta: “Como não havia o molho de ter grumos se tivessem de o preparar diante do olhar gelito da defunda caída ali no chão?”. 

Outra situação é o nascimento de uma criança, o que conduz ao chamamento da ama que criou todos os bebés naquela família. A senhora, que começou menina mas que estava já idosa, havia perdido capacidades cognitivas e de coordenação, mas recusava-se a admiti-lo porque ser AMA de bebés foi o que sempre definiu a sua existência e a utilidade que tem na vida. Ver a senhora idosa a reclamar dos costumes terem perdido o rigor de outros tempos ao mesmo tempo que tenta estar à altura dos mesmos é, a meu ver, bastante emotivo. Saber que a cozinheira ou qualquer empregado trabalhava até morrer, é emotivo. E daí dizer que esta é uma série que retrata essencialmente, o ser humano.

Seria um erro julgar que a série cai no retrato estereotipado dos patrões arrogantes que não têm consideração pelos empregados e que esta cozinheira não gosta do que faz nem dos patrões que tem. Neste período a sociedade tinha hierarquias melhor definidas, onde as funções de cada indivíduo estavam bem organizadas e, como tal, para se chegar a cozinheira digna desse nome, começava-se por baixo e só com provas dadas de qualidades especiais é que se progredia. É o mesmo que se passa hoje com quem quer chegar a chef. E a mágoa que a cozinheira sentia por ver um prato por si confeccionado não ser apreciado, suspeito que é equivalente. A diferença é que na altura qualquer insatisfação por parte dos patrões podia dar motivo a despedimento e o medo dessa consequência e a resultante miséria fazia o empregado ralar-se mais. Também, os pobres trabalhavam muito e ganhavam pouco, não conseguindo nem sobre extrema poupança e  no final de suas vidas, juntar dinheiro suficiente para o que fosse. Hoje e graças a sindicatos e afins, é o oposto. Numa cozinha actual, o chef é a maior autoridade e é o único que se pode dar a ares de arrogância e prepotência, que pode humilhar e subjugar os subalternos e ganha balúrdios de dinheiro, não temendo tanto o despedimento, mas fazendo com que temam que se demita. Diferençazitas… enormes.  

Entre os retratos sociais, existe também uma descrição das mudanças tecnológicas e comportamentais. A electricidade que veio a substituir o gás na iluminação das casas, os fios que faziam campainhas tocar que passaram a ser eletricos e todas as regras domésticas, desde a forma como se deve manter e tratar de uma casa, aos empregados de que necessita, à limpeza das superfícies, ao engomar dos tecidos, à confecção da comida, à preparação da mesa ou das toilettes. Todas as funções serviçais estão ali retratadas com primor, não fossem estes os principais inspiradores que motivaram a criação desta notória série. 


No que respeita a comportamentos, Elizabeth, a filha do casal Bellamy, prepara-se para entrar na maioridade ao completar 21 anos. Julga-se, como habitualmente os jovens se julgam, mais liberal que os pais, mais certa das suas convicções. Mas é um exemplo raro de pedantismo disfarçado de revolucionarismo. Quer ser liberal, julga-se assim, pretende quebrar com as regras da sociedade, ser amiga dos empregados, mas acaba é fazendo uma grande confusão, existindo mesmo episódios em que destrata o semelhante e desrespeita os empregados tratando-os com petulância e altivez. Ela é tão rebelde que foge de casa para se juntar a um poeta recusando-se em reconhecer qualquer utilidade no casamento. Deixa de falar à mãe, revolta-se contra os pais, sem perceber que os faz sofrer.
Elizabeth mostra-se indiferente à filha
Acaba casada com o poeta revolucionário, mas a vida dá-lhe uma lição inesperada: afinal, o poeta revolucionário não é tanto assim, nem as coisas são tanto assim, nem ele é muito chegado a mulheres como aparentava. Elizabeth acaba por engravidar de um conhecido do marido, numa situação gerada com primazia, pois tem a cumplicidade dos três. Depois de ter a criança também não parece muito satisfeita com isso. Enfim, Elizabeth é como inicialmente retratei: uma personagem que como as outras tem muita profundidade, mas o mais interessante é que tenta ser o que não é e revolta-se contra os que supostamente são aquilo que considera errado, acabando por fazer o que critica.

Para não mais me alongar, resta revelar que esta encantadora e didáctica série durou cinco temporadas e se todas tiverem a mesma qualidade, é sem dúvida, uma série imperdível para qualquer apreciador de bons momentos televisivos. Em 2010 a BBC_one voltou a filmá-la, com novas personagens, ambientada no ano de 1936 mas situada no mesmo endereço Londrino: 165 Eaton Place.


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2 comentários:

Anónimo disse...

É de facto uma série recheada de emoções com todas as realidades representadas. É tão real que até "assusta". Não fosse a evolução tecnológica, a cada nova geração; repetem-se os comportamentos sociais.

A série começou a ser difundida em Portugal quando eu tinha +/- a idade da Elizabeth. Claro, Familia Bellamy!? não obrigado! Hoje "revolto-me" comigo mesmo não ter prestado atenção à série naquele tempo. Hoje comovo-me de uma forma estranhamente nostálgica quando vejo cada episódio, talvez, tal como Elizabeth, sinta que não respeitei a realidade: não respeitei meus avós, meus pais, as regras da sociedade.

Tal como os livros obrigatórios nas escolas, atrevo-me a achar que esta série deveria fazer parte, obrigatóriamente, do curriculum escolar.

LP

Fã da TV e Cine disse...

Consegui sentir a emoção nas suas palavras, LP. A boa notícia é que a RTP Memória decidiu repetir a exibição da série. Agora pode acompanhar desde o início e comover-se novamente.

Eu vou rever, de controlo remoto na mão para gravar todos sem perder um.

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